Smartphones, plataformas de streaming, vídeos curtos, jogos e redes sociais fazem parte da rotina de crianças e adolescentes em alguma medida. Para especialistas em educação, o desafio não é afastar a tecnologia, mas ensinar a usá-la de forma consciente, crítica e criativa, sem que ela ocupe o lugar do brincar e das relações humanas.
Para a professora da Faculdade de Pedagogia da Universidade de Rio Verde (UniRV), Ma. Eveline da Silva Gontijo Moreira, as crianças de hoje têm uma relação muito mais intensa com imagens, vídeos e estímulos rápidos. “Isso não significa que a criança esteja aprendendo menos, mas que está aprendendo e se relacionando com o conhecimento de outras formas”, explica.
O desafio da escola, segundo ela, é compreender essa mudança sem confundir acesso à informação com aprendizagem, que exige tempo, atenção, interação, mediação, investigação e possibilidade de elaborar o que se conhece. O uso excessivo e pouco mediado das telas pode alimentar uma relação imediatista com o conhecimento, em que a criança espera respostas rápidas e tem mais dificuldade com espera, concentração, leitura prolongada, escuta e persistência.
Por isso, a escola precisa ensinar a criança a selecionar informações, questioná-las, estabelecer relações e produzir conhecimento. À família cabe construir uma relação mais consciente com as telas e estabelecer limites, como conhecer os conteúdos acessados e conversar sobre o que a criança vê. “Educar em tempos de infância hiperconectada é responsabilidade compartilhada entre família, escola e sociedade em geral”, destaca.
A professora reforça ainda que a tecnologia não deve ser tratada como inimiga da aprendizagem. Para ela, os pais podem se perguntar o que a criança está deixando de fazer enquanto permanece diante de uma tela. “Se a tecnologia ocupar o lugar do brincar, a dinâmica familiar precisa ser revista”, aconselha.
Para a professora da Faculdade de Psicologia da UniRV, Caroline Josiane Nascimento Fernandes, os efeitos das telas dependem de fatores como a idade da criança, o tempo de exposição, o tipo de conteúdo e, principalmente, o contexto em que ela está inserida. Segundo ela, pesquisas já identificam associações entre o uso excessivo ou inadequado e dificuldades ligadas ao sono, à atenção, à linguagem, à autorregulação emocional e à saúde física, mas nem todos os estudos demonstram relação direta de causa e efeito. “Minha preocupação não é apenas com o tempo que a criança passa diante da tela, mas com aquilo que ela deixa de experimentar quando esse tempo ocupa uma parte muito grande da sua infância”, destaca.
Com base na Psicologia Histórico-Cultural, a professora explica que funções como a atenção voluntária, a memória mediada e a linguagem se desenvolvem nas relações sociais. Por isso, a criança precisa de experiências concretas, de movimento, de brincadeiras e de conversas, que não são inteiramente substituídas pela interação com uma tela. Ela também reconhece os benefícios da tecnologia, como a ampliação do acesso ao conhecimento e os recursos de acessibilidade, e defende que a discussão deve focar na qualidade do uso.
Ao tratar das recomendações de tempo de uso por faixa etária, a professora pondera que elas são importantes como referência, mas não podem ignorar a realidade das famílias, para as quais a tela muitas vezes se tornou rede de apoio. Ela defende a ideia de redução de danos: escolher conteúdos adequados à idade, evitar vídeos com mudanças muito rápidas de imagens, desligar a reprodução automática e preservar momentos como refeições em família, conversas, brincadeiras e a hora que antecede o sono. Também orienta que a tela não seja a única estratégia para lidar com as emoções da criança, e sugere começar com mudanças simples, como vinte minutos de brincadeira compartilhada. “Não podemos exigir das famílias uma infância idealizada sem considerar as condições concretas em que elas estão criando seus filhos”, afirma.
Sobre a ideia de que as crianças estão crescendo antes da hora, Caroline observa o acesso cada vez mais precoce a conteúdos e referências do universo adulto, como redes sociais, padrões de beleza e consumo. Conforme a docente, isso não equivale a amadurecimento psicológico real: a criança pode reproduzir falas e comportamentos de adultos sem ter desenvolvido os recursos emocionais e cognitivos para compreendê-los. “Precisamos diferenciar a habilidade de utilizar uma ferramenta do desenvolvimento de outras capacidades psicológicas”, ressalta. Para a professora, o brincar, especialmente o faz de conta, participa do desenvolvimento da imaginação, da linguagem e da autorregulação, e assistir a uma brincadeira em vídeo não oferece as mesmas experiências que participar ativamente dela.
A professora lembra ainda que a responsabilidade é compartilhada: famílias, escolas, profissionais de saúde e educação, empresas de tecnologia e poder público têm papéis a cumprir, e os adultos também servem de modelo no uso que fazem do celular. “Não basta pedir que as crianças saiam das telas. Precisamos garantir que exista um mundo interessante, acessível e seguro esperando por elas fora das telas”, conclui.
Para o Reitor da UniRV, Prof. Dr. Alberto Barella Netto, discutir os desafios da sociedade contemporânea é também uma forma de valorizar o conhecimento produzido na Universidade e sua contribuição para o debate público. “A Universidade tem o compromisso de compartilhar conhecimento e contribuir para a reflexão sobre questões que fazem parte da realidade das famílias e da sociedade. Em um cenário de constantes transformações, é importante que a informação qualificada esteja acessível à população e ajude a ampliar o diálogo sobre temas que impactam o nosso cotidiano”, salienta.
Em nível municipal
Em Rio Verde, está prevista conforme a Lei nº 7.734/2025, a Semana Municipal do Detox Digital para Crianças e Adolescentes. Aprovada pela Câmara Municipal em novembro do ano passado, as ações devem ser realizadas anualmente na semana do dia 10 de outubro.
A iniciativa busca promover o uso consciente da tecnologia e incentivar atividades offline em família, para um convívio mais equilibrado entre o ambiente digital e o mundo real. A proposta também pretende conscientizar pais, responsáveis e jovens sobre os impactos do uso excessivo de telas e estimular práticas esportivas, culturais e recreativas que fortaleçam os laços familiares e contribuam para o bem-estar social.
Equipe ASCOM UniRV
Jornalista Jessica Bazzo – MTE 3194/GO
Arte: Vinicius Macedo