Dominar técnicas, interpretar exames e prescrever tratamentos são competências indispensáveis a quem escolhe a Medicina, mas cada vez mais se reconhece que elas não bastam. Por trás de cada sintoma existe uma pessoa com medos, histórias e necessidades que precisam ser compreendidas. É a partir dessa percepção que a formação humanizada ganha espaço nos cursos de medicina, como parte essencial do preparo de profissionais éticos, sensíveis e comprometidos com o cuidado integral. Para falar sobre o tema, o médico Pedro Antônio Bonfim de Sousa, diretor da Faculdade de Medicina da Universidade de Rio Verde, Campus Luziânia, amplia a discussão sobre a formação humanizada de médicos, que significa formar também bons ouvintes, bons interlocutores e profissionais capazes de enxergar o paciente para além da doença.
O Diretor lembra que o conhecimento técnico, embora indispensável, não esgota o que se espera de um médico. “A Medicina é frequentemente associada ao conhecimento técnico, à capacidade diagnóstica e ao domínio de procedimentos cada vez mais sofisticados. Esses elementos são indispensáveis para a prática profissional, mas, isoladamente, não são suficientes para garantir um cuidado verdadeiramente qualificado. O exercício da Medicina envolve pessoas em situações de vulnerabilidade, medo e incerteza. Por isso, além de reconhecer doenças e indicar tratamentos, o médico precisa compreender quem é o paciente, quais são suas necessidades e de que maneira sua história de vida influencia o processo de adoecimento. Nesse contexto, a formação humanizada torna-se fundamental para preparar profissionais mais éticos, sensíveis e comprometidos com o cuidado integral.”
Para Pedro Bonfim, a humanização não pode ser tratada como um adereço da formação, e sim como parte da própria essência da prática clínica.“A humanização em Medicina não deve ser entendida como uma característica secundária ou como um complemento à formação técnica. Trata-se de uma dimensão essencial da prática clínica. O paciente não chega ao consultório ou ao hospital apenas com sintomas e resultados de exames; ele traz expectativas, preocupações, experiências anteriores e, muitas vezes, dificuldades sociais e familiares que interferem diretamente em sua saúde. Ignorar esses aspectos pode levar a condutas inadequadas, à baixa adesão ao tratamento e ao enfraquecimento da confiança na relação médico-paciente.”
Ao tratar do papel da ética, o professor destacou que ela vai além do conhecimento de regras e exige reflexão diante de situações complexas do dia a dia.“Nesse sentido, a ética ocupa um lugar central na formação médica. Mais do que conhecer normas e códigos profissionais, é necessário desenvolver a capacidade de refletir sobre as consequências das decisões tomadas no cotidiano. O médico lida frequentemente com situações complexas, que envolvem limites terapêuticos, confidencialidade, autonomia, consentimento e diferenças culturais. Em muitos casos, não existe uma resposta simples ou inteiramente livre de conflitos. A ética, portanto, não se resume à aplicação automática de regras, mas envolve responsabilidade, prudência e respeito à dignidade humana.”
Sobre o respeito às escolhas de quem é atendido, o diretor afirmou que o paciente precisa ser protagonista nas decisões sobre a própria saúde. “Valorizar a autonomia do paciente é uma das expressões mais importantes dessa postura ética. O indivíduo deve ser informado, de maneira clara e compreensível, sobre seu diagnóstico, as possibilidades de tratamento, os riscos e os benefícios envolvidos. A decisão clínica não pode ser construída apenas a partir da perspectiva do profissional. Embora o médico possua o conhecimento técnico, o paciente é quem vivencia a doença e quem terá de lidar com os efeitos concretos de cada escolha. O cuidado adequado pressupõe diálogo e participação, respeitando os valores e as particularidades de cada pessoa.”
Segundo ele, o diálogo só se concretiza quando o médico desenvolve uma habilidade muitas vezes subestimada, a de escutar de verdade. “Para que esse diálogo seja possível, a escuta precisa ocupar um espaço privilegiado na consulta. Escutar não significa apenas ouvir as palavras pronunciadas, mas estar atento ao modo como o paciente se expressa, às suas pausas, aos seus receios e até mesmo ao que ele não consegue dizer diretamente. Uma escuta atenta permite identificar informações relevantes que nem sempre aparecem em questionários ou protocolos. Além disso, faz com que o paciente se sinta reconhecido e respeitado, o que contribui para a construção de um vínculo terapêutico mais sólido.”

O professor também aponta os obstáculos que dificultam a escuta qualificada na realidade dos serviços de saúde e defendeu que a comunicação seja ensinada desde o início do curso. “Apesar de sua importância, a escuta qualificada ainda pode ser prejudicada pela rotina acelerada dos serviços de saúde, pela sobrecarga dos profissionais e pela excessiva valorização da produtividade. Consultas muito breves, linguagem excessivamente técnica e interrupções constantes podem transmitir ao paciente a sensação de que sua história não é importante. A formação médica deve, portanto, estimular o desenvolvimento de habilidades de comunicação desde os primeiros anos do curso, não como uma disciplina isolada, mas como uma prática presente em diferentes cenários de aprendizagem.”
Ao falar sobre o vínculo entre quem cuida e quem é cuidado, Pedro Bonfim ressalta a necessidade de equilíbrio, honestidade e clareza, inclusive nos momentos mais delicados. “A relação médico-paciente também exige equilíbrio. O médico não deve assumir uma postura autoritária, mas tampouco pode deixar de exercer sua responsabilidade profissional. O vínculo adequado é construído com base na confiança, na honestidade e no reconhecimento dos papéis de cada pessoa. Isso implica explicar com clareza, acolher dúvidas, admitir limites e evitar promessas que não podem ser cumpridas. Em algumas situações, comunicar uma notícia difícil será inevitável. Nessas circunstâncias, a maneira como a informação é transmitida pode influenciar profundamente a forma como o paciente e sua família enfrentarão o tratamento e as mudanças decorrentes da doença.”
O Diretor chama atenção ainda para quem muitas vezes passa despercebido nessa discussão, o próprio estudante, submetido a uma formação intensa e emocionalmente exigente. “A humanização também envolve reconhecer que o próprio estudante de Medicina está sujeito a sofrimento, insegurança e esgotamento. A formação médica é marcada por intensa cobrança, contato frequente com a dor e a morte e necessidade constante de tomar decisões. Quando não há espaço para reflexão e apoio, o estudante pode desenvolver mecanismos de distanciamento emocional que, embora pareçam protegê-lo, podem comprometer sua capacidade de estabelecer relações genuínas com os pacientes. Cuidar da formação humana do futuro médico também significa oferecer condições para que ele conheça seus limites, desenvolva empatia sem perder o equilíbrio e aprenda a lidar com as próprias emoções.”
Para desfazer a ideia de que humanizar seria o oposto de investir em ciência, o professor explica que tecnologia e cuidado precisam caminhar juntos. “Formar médicos humanizados não significa abandonar a ciência ou reduzir a importância da tecnologia. Pelo contrário, significa utilizar o conhecimento científico de forma mais responsável e coerente com as necessidades reais das pessoas. Exames, protocolos e recursos tecnológicos devem estar a serviço do cuidado, e não substituir o encontro entre médico e paciente. Nenhuma ferramenta, por mais avançada que seja, elimina a necessidade de compreender a experiência humana do adoecimento.”
Pedro Bonfim resume o que considera a verdadeira finalidade da Medicina e reforça a responsabilidade das instituições de ensino nesse processo. “A Medicina alcança sua finalidade quando alia competência técnica a compromisso ético e sensibilidade. Diagnosticar corretamente é indispensável, mas cuidar exige mais do que identificar uma enfermidade. Exige reconhecer a pessoa por trás do diagnóstico, compreender sua realidade e construir, junto com ela, caminhos possíveis para o tratamento. Por isso, a formação humanizada não deve ser vista como um ideal distante, mas como uma responsabilidade concreta das escolas médicas e de todos os profissionais envolvidos na educação em saúde. Ao formar médicos capazes de escutar, dialogar e agir com ética, a universidade contribui não apenas para profissionais mais preparados, mas para uma Medicina mais justa, respeitosa e verdadeiramente comprometida com a vida.”
Ao falar do papel da UniRV na formação médica de excelência, o Reitor, professor Dr. Alberto Barella Netto, destaca que a Instituição entende a formação como um processo que une ciência, ética e responsabilidade com a comunidade, com a convicção de que a Medicina só alcança seu verdadeiro sentido quando é exercida com humanidade, acolhimento e respeito à vida. “A UniRV tem a missão de preparar pessoas capazes de atuar com ética e de contribuir de maneira significativa para a sociedade. No curso de Medicina, esse compromisso se traduz em uma formação que valoriza o rigor científico, a prática desde os primeiros períodos e o contato real com as necessidades da comunidade. Investimos em infraestrutura, em corpo docente qualificado e em metodologias que aproximam o estudante da realidade, porque acreditamos que a aprendizagem se completa quando o conhecimento se coloca a serviço do outro. Queremos que cada egresso da UniRV seja reconhecido não apenas pela competência técnica, mas também pela sensibilidade, pelo respeito à dignidade humana e pelo compromisso com a vida. Esse é o legado que construímos todos os dias, formando profissionais preparados para os desafios do presente e dispostos a cuidar de pessoas, famílias e comunidades.”
Pedro Antônio Bonfim de Sousa é médico, graduado pela Universidade Federal do Pará (UFPA), especialista em Medicina de Família e Comunidade, com título de especialista pela Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade (SBMFC). Diretor da Faculdade de Medicina Campus Luziânia- Port. 1.540/2026. Possui mestrado em Ciências da Saúde pela Universidade do Extremo Sul Catarinense (UNESC) e é mestrando no Programa de Mestrado Profissional em Saúde da Família, vinculado à Universidade Federal de Catalão (UFCAT) e à Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).
Equipe Ascom UniRV
Jornalista Vanderli Silvestre - MTB 4126/GO
Arte: Vinicius Macedo