Em meio à grande quantidade de informações que circulam diariamente na internet e ao avanço da inteligência artificial (IA), identificar o que é verdadeiro e o que é falso tornou-se um desafio cada vez maior. Textos, imagens, áudios e vídeos podem ser criados ou alterados com poucos cliques, dificultando o reconhecimento de conteúdos enganosos. Nesse cenário, o professor da Universidade de Rio Verde (UniRV), pesquisador de IA e membro do programa Google Higher Ed Faculty AI Fellowship, Me. Sandro Silva Moreira, discute os desafios de reconhecer a desinformação e destaca a importância do pensamento crítico e da verificação das informações antes de acreditar nelas ou compartilhá-las.
Segundo o professor, a inteligência artificial mudou a forma como a desinformação é produzida e disseminada. Hoje, conteúdos falsos podem ser criados em grande escala e apresentar uma aparência tão convincente que parecem vir de fontes confiáveis. Um texto bem escrito, uma imagem realista ou um vídeo com boa qualidade já não são suficientes para garantir a veracidade de uma informação.
Outro problema é que a facilidade de falsificação também pode ser usada para desacreditar provas verdadeiras. Quando uma gravação autêntica revela uma situação comprometedora, por exemplo, alguém pode alegar que o vídeo foi produzido por inteligência artificial. Essa estratégia, conhecida como “dividendo do mentiroso”, enfraquece a confiança nas evidências e torna mais difícil estabelecer o que realmente aconteceu.
Sinais de alerta
Embora os conteúdos gerados por inteligência artificial estejam cada vez mais realistas, algumas falhas ainda podem ajudar a identificar manipulações. Em vídeos, é possível observar se os movimentos da boca correspondem ao áudio, se há alterações estranhas no rosto ou no cabelo e se a iluminação parece natural. Vozes artificiais também podem apresentar entonação repetitiva, poucas pausas e uma maneira de falar excessivamente uniforme.
Esses sinais, no entanto, não são provas definitivas. As ferramentas estão evoluindo rapidamente, e conteúdos falsos podem não apresentar erros visíveis. Por isso, o professor destaca que a análise do contexto é tão importante quanto a observação das imagens e dos sons.
Declarações muito surpreendentes, mensagens alarmistas e publicações que provocam raiva, medo ou indignação merecem atenção redobrada, especialmente quando pedem compartilhamento imediato. Muitas vezes, a desinformação é construída justamente para despertar uma reação emocional antes que a pessoa tenha tempo de verificar os fatos.
Ferramentas que ajudam a verificar informações
Além de observar o conteúdo, é possível recorrer a ferramentas digitais que ajudam a investigar a origem de imagens, vídeos e áudios. Uma delas é o SynthID, tecnologia desenvolvida pelo Google DeepMind para inserir marcas digitais pouco perceptíveis em determinados conteúdos produzidos por inteligência artificial. Essas marcas podem ajudar a identificar a origem do material, mesmo quando ele passa por algumas alterações.
Outra possibilidade são as Credenciais de Conteúdo, baseadas no padrão C2PA. Elas funcionam como um registro digital que pode informar de onde veio um arquivo e quais alterações foram realizadas, quando esses dados estão disponíveis. A consulta pode ser feita pelo site
contentcredentials.org/verify.
Também existem ferramentas, como o InVID/WeVerify e o Hive Moderation, que analisam características de imagens e vídeos para estimar a possibilidade de terem sido produzidos ou manipulados por inteligência artificial.
O professor ressalta, porém, que essas tecnologias têm limitações. Nem todo conteúdo gerado por IA possui marcas digitais ou registros de origem, e uma ferramenta não identificar sinais de manipulação não significa que o material seja verdadeiro. Por isso, a verificação técnica deve ser acompanhada da busca por fontes confiáveis e da confirmação das informações em outros canais.
Cuidados na pesquisa acadêmica
No ambiente universitário, saber avaliar informações é essencial para a qualidade dos estudos e das pesquisas. O professor Sandro explica que as redes sociais podem ser objetos de investigação acadêmica, mas isso não significa que tudo o que é publicado nelas possa ser utilizado como evidência científica.
Para avaliar uma informação, ele recomenda a chamada “leitura lateral”, estratégia que consiste em sair da página ou do perfil em que o conteúdo foi encontrado e procurar outras fontes para verificar sua credibilidade. A prática envolve investigar quem publicou a informação, conferir a formação e a atuação do autor, buscar estudos sobre o assunto e verificar se as conclusões são compartilhadas por outros pesquisadores da área.
O mesmo cuidado deve ser adotado no uso de ferramentas de inteligência artificial, como ChatGPT, Gemini e Claude. Embora possam ajudar a organizar ideias, explicar conceitos e orientar pesquisas, suas respostas precisam ser conferidas. Esses sistemas podem apresentar informações incorretas, citar estudos que não existem ou reproduzir interpretações equivocadas com uma linguagem convincente.
Na prática, o estudante deve consultar os artigos científicos originais, verificar se as referências realmente existem e avaliar se as evidências apresentadas sustentam as conclusões. A tecnologia pode auxiliar o processo de aprendizagem, mas não substitui a análise crítica nem a responsabilidade de quem produz o trabalho acadêmico.
Os impactos da desinformação no pensamento crítico
A circulação de informações falsas afeta a maneira como as pessoas compreendem a realidade e tomam decisões. Como conteúdos enganosos aparecem nas mesmas redes e plataformas utilizadas para acessar notícias e informações científicas, distinguir fatos de opiniões e invenções exige cada vez mais atenção.
Um dos riscos é o chamado viés de confirmação, tendência de aceitar com mais facilidade informações que reforçam aquilo em que já acreditamos. Quando uma pessoa encontra um conteúdo alinhado às suas opiniões, pode compartilhá-lo sem verificar se é verdadeiro.
Esse comportamento pode ter consequências concretas, especialmente em assuntos relacionados à saúde pública, à vacinação e às mudanças climáticas, nos quais decisões individuais e coletivas dependem da avaliação de evidências confiáveis.
Na formação dos estudantes, o uso pouco crítico da inteligência artificial também traz desafios. Quando o aluno aceita respostas prontas sem questionar os argumentos ou conferir as fontes, pode deixar de desenvolver habilidades importantes, como interpretação, raciocínio e autonomia intelectual.
Ao mesmo tempo, a percepção de que qualquer conteúdo pode ser falso pode levar à desconfiança generalizada, inclusive em relação à imprensa profissional e às instituições científicas. Para o professor, é fundamental desenvolver a capacidade de distinguir informações confiáveis de conteúdos enganosos, sem assumir que tudo é verdadeiro ou que nada merece credibilidade.
O papel da universidade
Diante desse cenário, a universidade tem um papel importante na formação de pessoas capazes de utilizar a inteligência artificial de maneira consciente e avaliar criticamente as informações que recebem. Para o professor, não basta proibir a tecnologia ou estabelecer regras para seu uso. É necessário ensinar como ela funciona, quais são suas limitações e como verificar os resultados que produz.
Essa formação pode envolver diferentes áreas do conhecimento e incluir temas como proteção de dados pessoais, identificação de informações falsas, reconhecimento de possíveis preconceitos reproduzidos pelos sistemas e uso responsável das ferramentas digitais.
Também é importante repensar as atividades acadêmicas, valorizando não apenas as respostas finais, mas o processo de aprendizagem, a capacidade de argumentação e a análise das fontes consultadas.
Além disso, a universidade pode ampliar sua atuação junto à comunidade por meio de oficinas, projetos de extensão e atividades com escolas, ajudando estudantes, professores e outros públicos a desenvolver habilidades para lidar com a desinformação e a inteligência artificial no cotidiano.
Para o Reitor da UniRV, Prof. Dr. Alberto Barella Netto, os desafios trazidos pela inteligência artificial reforçam a importância de uma formação universitária que prepare os estudantes para lidar com informações de forma criteriosa, dentro e fora do ambiente profissional. “Formar profissionais hoje também exige prepará-los para avaliar informações, reconhecer os limites das ferramentas que utilizam e fundamentar suas decisões. Esse aprendizado não se restringe à atuação profissional: ele contribui para a maneira como cada pessoa participa da sociedade. Ao levar esse conhecimento para além da sala de aula, a Universidade também colabora para que a população compreenda melhor as mudanças que afetam seu cotidiano”, destaca.
Como evitar o compartilhamento de desinformação
Para a população em geral, o professor recomenda alguns cuidados simples que podem ser adotados antes de encaminhar uma mensagem pelo celular.
O primeiro é controlar a reação emocional. Conteúdos que provocam medo, raiva ou indignação, especialmente quando exigem compartilhamento urgente, devem ser avaliados com calma. Fazer uma pausa antes de repassar a mensagem ajuda a evitar decisões por impulso.
O segundo passo é procurar a informação em outras fontes. Notícias surpreendentes ou denúncias graves devem ser conferidas em veículos de imprensa confiáveis e em agências de checagem. Se uma informação aparece apenas em uma mensagem encaminhada ou em um perfil desconhecido, é importante investigar sua origem antes de acreditar nela.
O terceiro cuidado é utilizar ferramentas de verificação quando houver suspeita de imagens, áudios ou vídeos manipulados. Recursos como o SynthID e as Credenciais de Conteúdo podem ajudar a identificar a origem de determinados arquivos, embora não sejam capazes de verificar todos os conteúdos disponíveis na internet.
Por fim, é fundamental compreender que nenhuma ferramenta garante a identificação de todas as falsificações. Quando não for possível confirmar a origem ou a veracidade de uma informação, a atitude mais responsável é não compartilhá-la.
Em um ambiente digital no qual conteúdos verdadeiros e falsos podem parecer igualmente convincentes, desenvolver o hábito de questionar, investigar e conferir fontes é uma das principais formas de combater a desinformação.
Responsabilidade jurídica
O docente do Mestrado em Direito da UniRV, Prof. Dr. Nivaldo dos Santos, concorda que a expansão da inteligência artificial transformou a forma como as informações são produzidas e compartilhadas. Segundo ele, ao mesmo tempo em que amplia o acesso ao conhecimento, a tecnologia também facilita a criação de conteúdos falsos, manipulados ou enganosos. “A chamada desinformação tornou-se um dos maiores desafios da sociedade digital. Com ferramentas de IA, é possível criar textos, imagens, áudios e vídeos altamente realistas, dificultando a identificação do que é verdadeiro. Esse cenário aumenta os riscos para a democracia, para a reputação das pessoas e para a segurança da informação”, avalia.
O professor destaca que, diante desse cenário, cresce a responsabilidade de quem produz e compartilha conteúdos nas redes sociais. “Antes de publicar ou repassar uma informação, é fundamental verificar sua origem e autenticidade. O compartilhamento irresponsável pode contribuir para a disseminação de boatos e causar danos coletivos e individuais”, aconselha.
Ele explica que, no Brasil, não existe um crime genérico de “fake news”. Entretanto, quem cria ou divulga informações falsas pode responder civil e criminalmente, dependendo das consequências causadas. Crimes contra a honra, como calúnia, difamação e injúria, previstos no Código Penal, podem ser aplicados em casos de desinformação.
Além disso, a pessoa pode ser obrigada a indenizar a vítima por danos morais e materiais, conforme os princípios da responsabilidade civil previstos no Código Civil. O Marco Civil da Internet (Lei nº 12.965/2014) estabelece princípios para o uso responsável da rede e prevê a responsabilização dos agentes conforme suas atividades. “A tecnologia deve ser utilizada com ética, transparência e responsabilidade. Combater a desinformação exige não apenas leis eficazes, mas também educação digital, senso crítico e compromisso com a verdade. Somente dessa forma será possível aproveitar os benefícios da inteligência artificial sem comprometer a confiança nas informações que circulam na sociedade”, conclui.
Equipe ASCOM UniRV
Jornalista Jessica Bazzo – MTE 3194/GO
Arte: Vinicius Macedo