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Vida universitária e dinheiro: como cuidar das finanças sem deixar de viver

Publicado em: 19-10-2026
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Entrar na faculdade é uma grande mudança na vida, e para muitos estudantes, essa mudança também significa sair da casa dos pais e morar em outra cidade. De repente, além das aulas, provas e trabalhos, aparecem responsabilidades que antes talvez não existissem, como por exemplo, custeio de aluguel, água, energia, internet, alimentação, transporte, mensalidade da faculdade, materiais, farmácia e, claro, os gastos com lazer e vida social. É justamente nessa fase que aprender a cuidar do dinheiro pode fazer uma enorme diferença.

Doutora em Administração, Eliene Aparecida de Moraes, diretora da Faculdade de Ciências Contábeis apresenta o tema de forma detalhada e aprofundada. A professora começa explicando que essa dificuldade em organizar as finanças não é só problemas de estudantes, ao apontar uma pesquisa da Serasa divulgada em 2025, mostrando que 55% dos jovens da Geração Z já são os principais responsáveis pelas próprias finanças, enquanto apenas 10% disseram ter tido acesso significativo à educação financeira em casa. 

“Entre os jovens pesquisados, 69% apontaram as contas básicas entre suas principais despesas. Ou seja, muitos jovens chegam à vida adulta tendo que tomar decisões importantes sobre dinheiro sem terem aprendido, de maneira prática, como fazer isso.”

A docente pondera que para organizar as finanças, primeiro é necessário descobrir quanto custa viver em Rio Verde durante um mês. “Parece óbvio, mas muita gente sabe quanto paga de aluguel e mensalidade, mas não sabe quanto gasta no total. O primeiro passo é fazer uma lista de tudo o que você recebe: salário, estágio, bolsa, ajuda dos pais, trabalhos extras, e depois anotar tudo o que gasta.”

Na prática, Eliene explica que os gastos podem ser divididos em quatro grupos, sendo o primeiro grupo de moradia e faculdade, com despesas de aluguel, água, energia, internet e mensalidade; o outro grupo com as necessidades do dia a dia, como alimentação, transporte, material acadêmico, higiene e medicamentos; um terceiro grupo com lazer e desejos, com as despesas de bares, festas, delivery, roupas, streaming e viagens; e o quarto grupo para reserva, que é o dinheiro destinado aos imprevistos e objetivos futuros.

“Não precisa usar uma planilha complicada. Pode ser uma planilha simples, um aplicativo ou até as anotações do celular. O importante é registrar. Deve-se ter cuidado com os pequenos gastos, pois eles parecem pequenos até você somá-los. Por exemplo, um café de R$ 8, um lanche de R$ 20, um delivery de R$ 45, uma corrida de aplicativo de R$ 18. Separadamente, nenhum desses valores parece capaz de prejudicar o orçamento. O problema aparece quando eles se repetem.”

Eliene orienta fazer uma experiência: durante 30 dias, anotando absolutamente todos os gastos, até aquele cafezinho de poucos reais. “No final do mês, some por categoria. Você pode se surpreender ao descobrir quanto está gastando com delivery, lanches, transporte por aplicativo ou saídas.”
 


Ela completa que isso não significa abrir mão dos momentos de lazer, como sair com os amigos ou pedir aquela refeição preferida, pois  educação financeira não se resume a viver sem gastar, mas a saber até que ponto é possível gastar sem comprometer as despesas essenciais. 

A docente orienta também sobre o que fazer quando o dinheiro cai na conta, e a regra é pagar primeiro o que mantém a vida funcionando. “Se você recebe dinheiro no começo do mês, não olhe para o saldo da conta como se todo aquele valor estivesse disponível para gastar. Uma parte dele já tem destino. Antes de qualquer outra coisa, separe o dinheiro do aluguel, mensalidade, água, energia, internet, alimentação básica e transporte. Só depois veja quanto realmente está disponível para outras despesas.”

Segundo ela, uma maneira fácil é imaginar que existem dois saldos na conta. “Saldo bancário, que é o que aparece no aplicativo, e o saldo realmente disponível, que é aquilo que sobra depois de considerar todas as contas que ainda vão vencer. Por exemplo, se há R$ 1.500 na conta, mas você ainda tem R$ 900 de despesas obrigatórias naquele mês, você não tem R$ 1.500 disponíveis para gastar. Tem R$ 600.”

Para quem tem dificuldade em controlar os gastos, pensar no mês inteiro pode ser complicado, contudo Eliene orienta que uma alternativa simples. “Crie um limite semanal para as despesas que você consegue controlar. Depois de separar aluguel, mensalidade, contas e outros compromissos, veja quanto restou para alimentação fora de casa, lazer e pequenas despesas. Divida parte desse valor pelas semanas do mês. Por exemplo: se você decidiu que pode gastar R$ 400 naquele mês com lazer, lanches, delivery e outras despesas pessoais, pense em aproximadamente R$ 100 por semana. Se gastar R$ 180 na primeira semana, saiba que alguma semana seguinte precisará ser mais econômica. Isso ajuda a evitar uma situação muito comum: viver relativamente bem nas primeiras semanas e passar os últimos dias do mês contando moedas.”

Além disso, a professora salienta que se deve lembrar que cartão de crédito não é renda extra. “Esse talvez seja um dos pontos mais importantes. O limite do cartão não faz parte da sua renda. Se você recebe R$ 1.500 por mês e o banco oferece um limite de R$ 4.000, você continua tendo uma renda de R$ 1.500.”

Ela complementa citando uma pesquisa da CNDL/SPC Brasil divulgada em 2026, que constatou que 58% dos usuários de cartão ouvidos não faziam controle ativo dos gastos realizados no cartão. Parte deles apenas consultava o aplicativo ou esperava o fechamento da fatura para descobrir quanto havia gastado. “Crie seu próprio limite, mesmo que o banco ofereça um valor maior. E acompanhe a fatura durante o mês, não apenas quando ela fechar. Se você não conseguir pagar o valor integral da fatura, pare de usar o cartão e reorganize o orçamento. O Banco Central também alerta para o custo elevado do crédito rotativo e mantém materiais específicos sobre como evitar esse tipo de dívida.”

Eliene cita também que o parcelamento das compras no cartão de crédito ocupa espaço no orçamento. “É só R$ 49,90 por mês” pode parecer pouco. O problema começa quando existem dez compras de “só R$ 49,90”. Toda vez que fizer uma compra parcelada, lembre-se que você está usando parte da renda dos próximos meses. Antes de comprar, pergunte: “Se eu continuar pagando isso pelos próximos seis meses, essa parcela vai me atrapalhar?” Por isso, mantenha uma lista das parcelas futuras. Celular, notebook, roupa, viagem e outras compras parceladas devem aparecer no seu orçamento dos meses seguintes.”
 

A vida social também precisa entrar no orçamento
 

A docente comenta que a vida social não deve ser eliminada do orçamento mensal. ”Faculdade também é convivência. Sair com amigos, participar de festas, ir a restaurantes ou viajar faz parte da experiência universitária. O erro não está em gastar com lazer; está em gastar sem saber quanto pode gastar. Defina um valor mensal para lazer. Quando esse dinheiro acabar, procure alternativas mais baratas ou gratuitas. Reunir amigos em casa, dividir despesas, aproveitar eventos gratuitos ou estabelecer previamente quanto poderá gastar em uma noite são decisões simples que ajudam bastante.”

Outro ponto importante que a professora ressalta é o cuidado com a pressão para acompanhar o padrão de consumo dos outros. “Uma pesquisa da CNDL/SPC Brasil sobre consumidores inadimplentes encontrou um dado interessante: 47% dos entrevistados disseram sentir pressão para gastar mais quando estavam com familiares ou amigos, e 29% reconheciam gastar além do que podiam para acompanhar o padrão de vida dos amigos. Seu colega pode ter uma renda diferente, receber mais ajuda da família ou simplesmente estar se endividando. O orçamento dele não precisa ser o seu orçamento.”

Ela menciona a importância de fazer uma reserva para os cobrir imprevistos. “Não se esqueça, comece uma reserva, mesmo que seja pequena. Nem todo mês acontece exatamente como planejamos. O computador pode estragar, pode surgir uma despesa médica, uma viagem inesperada para casa ou algum gasto acadêmico não previsto. Por isso, tente criar uma reserva. Se hoje você consegue guardar apenas R$ 20 ou R$ 50 por mês, comece com isso. O hábito é mais importante do que esperar sobrar uma grande quantia para começar.”

Eliene completa que uma estratégia simples é tratar esse valor como se fosse uma conta a pagar. Assim que receber, separe uma pequena parte antes de começar a gastar. Com o tempo, e conforme a situação financeira melhorar, aumente esse valor. E para manter o controle, faça uma reunião financeira com você mesmo uma vez por mês. Escolha um dia do mês e reserve 15 ou 20 minutos para olhar sua vida financeira. Veja quanto entrou e o quanto saiu, onde você gastou mais do que esperava e quais contas chegarão no próximo mês.”

A docente alerta que não é preciso transformar o controle financeiro em algo complicado. Segundo ela, o objetivo não é ter uma planilha perfeita, mas perceber os problemas antes que eles se transformem em dívidas. E, mais importante, a educação financeira pode, sim, produzir resultados de longo prazo. “Cuidar do dinheiro durante a faculdade não significa deixar de viver, nunca sair com os amigos ou comprar apenas o absolutamente necessário. Significa aprender a fazer escolhas. Se você souber quanto recebe, quanto gasta, quais são suas prioridades e quanto pode gastar sem comprometer o mês seguinte, já estará dando um grande passo.”

Eliene finaliza orientando que o caminho deve começar de maneira simples.”Anote os gastos por 30 dias, separe primeiro o dinheiro das contas essenciais, estabeleça um limite para o lazer, acompanhe o cartão, evite parcelamentos desnecessários e tente guardar um pouco todos os meses. A faculdade prepara você para uma profissão. Aprender a cuidar do seu dinheiro ajuda a preparar você para a vida", conclui.
 

Bibliografia
Banco Central – Educação e Cidadania Financeira: Portal de Cidadania Financeira do Banco Central. Disponível: https://www.bcb.gov.br/cidadaniafinanceira?utm_source=chatgpt.com/ Banco Central – Caderno de Educação Financeira: Caderno de Educação Financeira. Disponível: https://site.cndl.org.br/47-dos-jovens-da-geracao-z-nao-realizam-o-controle-das-financas-aponta-pesquisa-cndl-spc-brasil/?utm_source=chatgpt.com/ CNDL/SPC Brasil – Pesquisa sobre controle financeiro de jovens: Pesquisa CNDL/SPC sobre jovens e finanças. Disponível em: https://site.cndl.org.br/47-dos-jovens-da-geracao-z-nao-realizam-o-controle-das-financas-aponta-pesquisa-cndl-spc-brasil/?utm_source=chatgpt.com/ CNDL/SPC Brasil – Pesquisa sobre uso e controle do cartão de crédito: Pesquisa sobre controle dos gastos com cartão/ Serasa – Pesquisa sobre finanças da Geração Z: Pesquisa Serasa sobre jovens e vida financeira. Disponível em: https://www.serasa.com.br/imprensa/jovens-da-geracao-z-sao-os-principais-responsaveis-pelas-suas-proprias-financas-revela-serasa/?utm_source=chatgpt.com/ Banco Central – Estudo sobre efeitos de longo prazo da educação financeira: Estudo do Banco Central sobre educação financeira. Disponível: https://www.bcb.gov.br/publicacoes/estudosespeciais/https:/www3.bcb.gov.br/sgspub?utm_source=chatgpt.com.
 
 
Equipe Ascom UniRV
Jornalista Vanderli Silvestre - MTB 4126/GO
Arte: Vinícius Macedo
 

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