Em uma sociedade marcada pela velocidade das informações, pela busca por respostas imediatas e pela pressão por resultados, o sofrimento psíquico nem sempre encontra espaço para ser compreendido. Em meio à rotina acelerada, a saúde mental ganha cada vez mais relevância, enquanto a escuta atenta se apresenta como um elemento fundamental para acolher as angústias, os conflitos e as experiências singulares de cada indivíduo. Nesse contexto, a psicanálise propõe um olhar que vai além de respostas prontas, valorizando a palavra, a subjetividade e o tempo necessário para compreender aquilo que nem sempre pode ser expresso de forma imediata.
Para aprofundar essa reflexão, o professor da Faculdade de Psicologia, Me. Joel Marcos Spadoni, que possui experiência na área da Psicologia Clínica, com ênfase em psicanálise, saúde mental e atendimento hospitalar, contribui com uma perspectiva sobre os desafios do cuidado psicológico e a importância da escuta na compreensão do sofrimento humano.
Ao falar sobre sua relação com a psicanálise, o professor destaca que essa prática ultrapassa o campo profissional e está presente também na maneira como compreende a própria vida, as relações humanas e as experiências que constituem a subjetividade. “Pratico como sujeito que se dispõe a falar e se encontrar nos percursos que conduzem o meu viver, minha subjetividade e os significados que atribuo a vida. Pratico como estudioso que sou dos seus assuntos intermináveis, de fato, jamais se esgotarão. Enquanto vida houver, haverá sentimentos, estes que impregnam no viver constituindo os relacionamentos numa história inacabável. Pratico como analista, ao oferecer a escuta atenta a quem me procura com suas experiências vívidas e pulsantes de incertezas. Pratico também observando a vida, seus acontecimentos, suas reviravoltas, seus caminhos retos e tortuosos, inusitados, surpreendentes, que nos oferecem oportunidades de analisar e interpretar o viver.”
Na perspectiva do professor, a relação entre psicanálise e vida está diretamente ligada à forma como o indivíduo vivencia suas experiências. Joel chama a atenção para o imediatismo contemporâneo e para a dificuldade de encontrar tempo para refletir sobre o próprio viver. “A psicanálise e o viver estão amalgamados, não é possível separá-los. A vida oferece a oportunidade de expressão; o homem deseja e vive, mas viver é uma ação, exige de quem vive uma implicação e um compromisso com o desenvolvimento pessoal. E por falar nesse desenvolvimento pessoal, hoje o homem vive no tempo do imediatismo. A impressão de que se está perdendo tempo e oportunidades coloca o humano numa mania na qual se tem a impressão de que o agir é mais premente que o viver. Estas demandas são mobilizadas pelos desconfortos e constrangimentos do viver, que muitas vezes se apresentam como urgências virtuais que disponibilizam o mundo e a realidade na palma da mão.”
Ao abordar a constituição do ser humano, Joel ressalta a importância dos afetos, dos sentimentos e dos processos inconscientes na construção da subjetividade. “Falo essas coisas porque fico pensando na construção do ser humano, este que é formado de um amontoado de células e órgãos e sistemas complexos que lhe confere uma forma “humana”. No entanto, para preencher essa casca não basta a matéria biológica, é preciso preencher com afeto, sentimentos que caracterizam e distinguem o humano em suas especificidades subjetivas, tornando cada existência única. Esse preenchimento irá constituir o aparelho psíquico, comandado regiamente pelo inconsciente, depositário dos nossos desejos e anseios mais íntimos e preciosos do nosso viver. É ele quem conduz o homem em suas decisões e nas suas expressões de tudo que manifesta.”
As exigências sociais e a busca por padrões idealizados também estão entre os fatores que, segundo Joel, merecem atenção quando se discute saúde mental. “Então, quem é o homem hoje? O que se espera dele nesses tempos tão exigentes? Existe, atualmente, uma demanda de adequação do humano àquilo que é estabelecido por convenções sociais, como algo esperado que configura um novo padrão de ideais de uma geração que têm feito de suas existências, personagens que mais atuam algo idealizado do que exprimem, de fato, sua verdadeira expressão do sentir. Este ideal, bastante distante do real, imprime uma pressa, uma urgência para realizar ações perfeitas. São imposições que geralmente colocam o ser no lugar da frustração, devido ao grau de exigência, daí quem sofre é a saúde mental. Pessoas passam a se sentir incapazes, frustradas, com uma diminuição na percepção da autoimagem e da autoestima. Tudo isso começa a se manifestar no corpo como sintomas psicossomáticos que acabam por produzir sentimentos de inadequação no viver.”
Diante dos conflitos e desconfortos emocionais, a escuta psicanalítica, segundo o Docente, pode oferecer um espaço para a elaboração das experiências e a construção de novos significados. “Comumente, este desconforto levará a pessoa a buscar apoio psicoterápico e é neste momento que a psicanálise tem uma oportunidade ímpar de oferecer a escuta para também desacelerar e promover significado nesta vida faltante de experiências que constituam contorno e confiram um novo sentido para o viver. O viver exige tempo para desfrutar as experiências. Já pensaram como o tempo e o viver também são indissociáveis, acho que o que faz a diferença é que as pessoas não realizam o quanto estes construtos são importantes no dia a dia.”
Por fim, Joel chama a atenção para a dificuldade de reservar tempo para o cuidado com a saúde mental em uma rotina marcada por múltiplas demandas. “De fato, destinamos o tempo pessoal para viver a vida do trabalho, do lazer, do esporte, dos relacionamentos, do ócio etc. Mas quando chega a hora de separar tempo para cuidar da saúde mental, novamente vem a sensação de urgência e de precisar de respostas rápidas. Como se escutar rapidamente? É preciso tempo para a escuta e a reflexão. Tempo de qualidade e preenchimento das vivências significativas. Neste momento gostaria de mudar o argumento que dirige este breve texto: ao invés de perguntarmos se ainda há espaço para a escuta em tempos de respostas rápidas, proponho: Será que a escuta do inconsciente é o legado que a psicanálise nos deixou para vivermos bem nos tempos das respostas rápidas?” conclui.
Equipe Ascom UniRV
Jornalista Vanderli Silvestre - MTB 4126/GO
Arte: Vinícius Macedo